sexta-feira, 2 de novembro de 2012

 
VERDE
 
 



Domingos Araújo.
Professor de Filosofia que veio de Braga dar aulas na minha escola.
Pronúncia engraçada.
Loirinho e pequenino.
Olho verde.
Corrigia os testes a verde.
Eu tinha 15 anos e despertava em mim o gosto pela filosofia e pelas coisas da escrita.
Comecei a escrever os testes a verde.
O professor usava uma caneta vermelha só para mim.
Era o nosso segredo.
Um dia resolve corrigir o teste com variadas cores e deixa-me um post scriptum:
"Todas estas cores são metafóricas e representam uma tentativa frustada de compreender a razão do seu verde".
Sorri ao ler.
Ele encolheu os ombros e comentou: "Não percebeu".
Com este professor aprendi que as aulas podem ser criativas.
Ansiava pelas suas aulas.
Aprendia com prazer e a brincar.
Um dia antes do ultimo teste pergunta-me se estou preparada.
"Estudou?".
Respondi-lhe com um desafio.
Iria comprar um livro nessa tarde e seria o meu estudo.
No fim do teste ele teria que adivinhar que livro escolhi.
O exame final consistia numa única pergunta:
Valeu a pena?
Quando entregou os testes deixou o meu para fim.
E começou a ler em voz alta.
Chorei.
Ele também chorou.
Neste ultimo teste deixou o seu ultimo post scriptum:
"Cristina gostei muito de a conhecer. Tenha coragem. Afirme-se e liberte essas asas. D.A"
Sim. Tive boa nota.
Sim. Descobriu o livro que tinha comprado.
Não. Nunca percebeu a verdadeira razão do verde.
Cristina Vaz

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