domingo, 4 de novembro de 2012

 
AS PEDRAS DA CALÇADA
 
 



Há dias dei por mim a invejar as pedras da calçada.
Parece estranho eu sei.
Pensei que depois de eu morrer, uma infinidade de pessoas as pisarão, e elas continuarão,alí, intactas.
Dia após dia após dia.
Invejei as rochas da minha Serra da Estrela, que irão continuar altas e imponentes geração após geração.
Nós, seres humanos somos frágeis e perecíveis.
Vivemos cada dia numa contagem decrescente até ao momento final.
Depois percebi que todos estes meus pensamentos eram uma tolice.
As pedras da calçada nunca irão verter uma lágrima.
As rochas nunca irão esboçar um sorriso.
Antes de morrer já estão mortas pois nunca chegaram a nascer.
Não sendo seres vivos não sentem.
De que lhes serve então essa espécie de imortalidade?
Parece um paradoxo eu sei.
De que serve à rocha a sua força e resistência se nunca irá sentir dor?
Sentir medo. Sentir.
De que serve a uma pedra de calçada que o Sol brilhe todos os dias?
Eternamente condenadas a uma existência num deserto de sentir.
Que se dane a nossa efemeridade.
Urge viver. Urge sentir.
Cada segundo.
E as pedras da calçada?
São apenas pedras. Numa calçada.
Cristina Vaz

2 comentários:

  1. São os seres não vivos, que tornam a nossa efemeridade mais suave, suportam nosso corpo e emocionam os nossos sentidos. :-)

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